A EXPANSÃO DA LÍNGUA INGLESA COMO A LÍNGUA DA GLOBALIZAÇÃO


A EXPANSÃO DA LÍNGUA INGLESA COMO A LÍNGUA DA GLOBALIZAÇÃO

Por que estudamos inglês? O que nos fascina tanto nessa língua a ponto de buscarmos uma escola para aprender a falar o idioma? E o que mais nos atrai: é a música, o cinema ou são os aspectos culturais como um todo? Esse sentimento é só com a língua inglesa ou com outras línguas acontece processo semelhante? Atualmente, o francês, alemão e espanhol gozam do mesmo prestígio social? Quando e como a língua inglesa atingiu o status de língua franca, isto é, a língua dos negócios, da cultura, dos esportes e ... da globalização? Como se percebe, são muitas as questões sobre as quais, talvez, nunca paramos para pensar, não é mesmo?


O nosso objetivo aqui é, além de responder a essas questões, suscitar uma discussão sobre nosso fascínio pela língua inglesa. Com isso, podemos pensar ainda de que modo, consciente ou inconscientemente, professoras e professores de língua inglesa têm contribuído para a manutenção dessa admiração quanto à língua e seus aspectos culturais implicados.


A motivação de tocar nesse “vespeiro” é o fato de que, mesmo em English Language Teaching (ELT) e nos departamentos de Linguística Aplicada das mais prestigiadas universidades do mundo, são poucos os pesquisadores que se debruçam sobre a força política, educacional e econômica que a língua inglesa e seu ensino suscitam nos mais diversos rincões do globo.

Globalização: o que é exatamente?


O linguista aplicado B. Kumaravadivelu, em seu recomendável artigo intitulado A Linguística Aplicada na era da globalização (2006, p. 130), afirma o seguinte: “o conceito de globalização tem significados diferentes para pessoas diferentes em diferentes épocas”, mas com uma unanimidade: sua língua é o inglês.


Para chegar a essa afirmação, ele analisou trabalhos de diversos especialistas das ciências sociais e humanas, pois Kumaravadivelu é um entusiasta de que a Linguística Aplicada (LA) seja interdisciplinar, no sentido de não respeitar as “próprias fronteiras”, uma vez que a relação com o outro lado tende a trazer benefícios imensos para o trabalho de educador.


É bom ressaltar que não é nossa tarefa definir com precisão cirúrgica os vários significados do conceito de globalização. Para isso, sugerimos que o leitor consulte o texto mencionado.


A globalização é entendida aqui, portanto, como o “processo que conduz a uma integração cada vez mais estreita das economias e das sociedades, especialmente no que diz respeito à produção e troca de mercadorias e de informação” (@ulete digital [s.d.]).


No final do século XX, a globalização estabeleceu-se como um processo de integração das nações nas esferas econômica, política e cultural. Desde então, com as fronteiras nacionais mais tênues, nações desenvolvidas têm buscado, ao redor do globo, não só novos mercados para seus produtos e locais com a mão de obra mais barata para produzi-los, como também a difusão da sua cultura, entrelaçando o político-econômico, o ideológico e o cultural.


Em outras palavras, a globalização estreitou o espaço, o tempo e as fronteiras, mas não potencializou a harmonia entre povos para o compartilhamento de valores entre pessoas ao redor do globo. Essa contração espaciotemporal tem sido unilateral.

Globalização, língua e poder


Para tornar mais eficiente a comunicação entre as nações, instaurou-se uma língua franca moderna, impulsionada especialmente por medidas de teor econômico. Assim, estabeleceu-se que seria a língua inglesa. Por que coube ao inglês o status genuinamente global?

Em seu English as an International Language, David Crystal (2003, p. 9-10) bem observa que uma língua só adquire o status de genuinamente global por uma única razão: “o poder de seus falantes”. Esse poder está relacionado à cultura, às ciências, à tecnologia etc., mas acima de tudo ao político e militar para impor e à economia para expandir e manter. A nação que detém essa hegemonia na atualidade são os EUA, cujo idioma é o inglês, herança do imperialismo britânico.


Nesse cenário de dominações e imposições, o inglês se constituiu enquanto a língua global (ou internacional), restando às outras nações se adaptarem a esse idioma com a finalidade de manter suas relações político-econômicas.


A necessidade da manutenção dessas relações corroborou para que o inglês se expandisse consideravelmente no mundo moderno. Com isso, conforme pondera David Crystal, em seu The Language Revolution (2004), o inglês torna-se a primeira língua de fato global.

Fomentada pela sua expansão, propagou-se também a cultura relacionada à língua, uma vez que o processo de ensino-aprendizagem de um idioma não se dá sem seus aspectos culturais, reproduzidos em massa por meio da indústria da arte e do entretenimento, como música, cinema, literatura, teatro etc.; por meio das agências de notícias ou grupos midiáticos, como BBC, CNN, Washington Post, New York Times etc., mas também por meio de comunidades mais restritas, como a científica, por exemplo.



O inglês é, nos dias presentes, a língua do poder político-econômico, das ciências e tecnologias, do sucesso comercial e midiático. Por tudo isso, é a língua de maior prestígio e sedução sobretudo entre os jovens.


Aparentemente, ela outorga civilização, sabedoria e riqueza aos seus falantes. Esse idioma passa a impressão de ser onipresente, pois está de algum modo exercendo uma função, seja no macrossistema (resoluções políticas ou acordos de paz na ONU), seja no microssistema (o cotidiano do cidadão comum, ao operar seu computador/smartphone ou mesmo ao se candidatar a uma vaga de emprego).

Ancorado nessa ubiquidade, o inglês funciona, em certos contextos, como uma espécie de “guardião” das posições socialmente prestigiadas (PENNYCOOK, 2003), ou seja, tornou-se um poderoso instrumento de exclusão, ao operar como uma barreira “invisível” através da qual se mantêm as desigualdades políticas, econômicas e sociais entre povos, segregando-os nas seguintes dicotomias: desenvolvido/subdesenvolvido, moderno/retrógrado, civilizado/bárbaro etc.



Ainda assim, sua expansão (particularmente as causas e os efeitos) é, em geral, negligenciada ou considerada “natural, neutra e benéfica”:


É considerada natural porque, ainda que possa haver alguma referência crítica à imposição colonial do idioma, sua consequente expansão é vista como um resultado de forças globais inevitáveis. É vista como neutra porque se presume que, uma vez destacado dos seus contextos culturais originais (especialmente Inglaterra e EUA), seja agora um meio de comunicação neutro e transparente. É considerada benéfica porque, numa visão maliciosamente otimista de comunicação internacional, se assume que tudo isso ocorra em pé de igualdade e cooperação (PENNYCOOK, 2003, p. 9).


Políticas linguísticas (Language policy)


A partir desse cenário, Phillipson (1992), Pennycook (2003; 1998) e outros linguistas aplicados chamam a atenção para o fato de que, com o endosso de importantes organizações britânicas e estadunidenses (estas últimas sobretudo a partir de 1945), existem políticas promovendo deliberadamente a utilização do idioma inglês nos quatro cantos do mundo com finalidades políticas e econômicas.

Entre essas organizações, destaque-se o Conselho Britânico (British Council). Assim rebatizado em 1935, é o órgão britânico cuja principal missão é propagar a língua/ cultura britânica por meio de parcerias público-privadas.


Indagado se as atividades do Conselho eram “promoção cultural” ou “propaganda política”, a resposta, dada no seu Relatório Anual de 1963-1964, foi bem assertiva: “O Conselho não finge fazer caridade: em todo o seu trabalho, visa a promover os interesses britânicos a longo prazo” (para uma análise mais detalhada dessa questão, Cf. A. Pennycook, 2003).


Ainda a respeito das atividades do Conselho, Ndebele (1987) sugere o seguinte:


O Conselho Britânico [...] continua incansável em seus esforços para manter o mundo falando inglês. A esse respeito, ensinar inglês como segunda língua ou língua estrangeira não é apenas um bom negócio em termos de produção de material didático de toda sorte, [...] como também é uma boa prática política.

Note que, por muito tempo, o governo britânico trabalhou para fazer acontecer a expansão do seu idioma. Por exemplo, entre 1925 e 1930, o linguista inglês Charles Kay Ogden (1889-1957) desenvolveu o Basic English (acrônimo para British American Scientific International Commercial), um sistema de linguagem controlada com um vocabulário restrito a 850 palavras, cujo objetivo é funcionar como uma língua internacional auxiliar, bem como um meio de se ensinar inglês para falantes de outras línguas.


O Basic English mostrou-se a tentativa mais significativa de se criar uma forma simples e padronizada da língua inglesa. Seu sucesso foi tanto que, em 11 de julho de 1943, o então Primeiro Ministro inglês Winston Churchill despachou uma carta endereçada a Sir Edward Bridges (secretário do Gabinete de Guerra), na qual afirmou categoricamente:


Estou muito interessado nesse Basic English. Seu uso generalizado seria, para nós, um ganho muito mais duradouro e frutífero do que a anexação de grandes províncias. [...] Os impérios do futuro são os impérios da mente (ênfase acrescida).



O ensino de inglês nas universidades


Não podemos nos esquivar do fato de que, em 1948, surge a Linguística Aplicada enquanto uma disciplina acadêmica, que a priori se resumia à “aplicação da Linguística” ao ensino de inglês como segunda língua ou como língua estrangeira.


Inicialmente, a Linguística Aplicada esteve muito atrelada aos interesses defendidos pelo Conselho Britânico (PHILLIPSON, 1992; RAJAGOLAPAN, 2013). Tanto que alguns dos primeiros linguistas aplicados eram funcionários do Conselho Britânico antes de ingressarem na vida acadêmica. Em outras palavras,

A formação acadêmica para o ELT era responsabilidade das universidades, onde a Linguística Aplicada, em sua atual roupagem, foi gerada pelo Conselho Britânico. Este era, internamente, o principal elo dos interesses estatais e privados [...] (PHILLIPSON, 1992, p. 300).

Com base na análise de documentos governamentais da época, como os relatórios produzidos pelo Conselho, o autor afirma que houve, sim, interesse federal na expansão da língua, por isso mesmo, o governo britânico fez o possível para que isso ocorresse na conformidade de seus planos.


Em consonância com as observações do pesquisador supracitado, Rajagolapan (2013) relata que “[...] era preciso assegurar a qualquer custo o papel central da Grã-Bretanha no projeto de levar a língua inglesa aos quatro cantos do mundo”. Com base em Phillipson (1992), o linguista relata ainda que esse esforço foi motivado pelo fato de a Grã-Bretanha perceber que, “após o declínio de seu império e seu consequente empobrecimento pós-guerra, sua língua se transformara em algo bem mais precioso do que o petróleo do mar do Norte” (RAJAGOLAPAN, 2013, p. 155).



Logo, a empreitada de ensinar o idioma globalmente foi de suma importância para a “expansão massiva da língua inglesa no mundo” (PENNYCOOK, 1998, p. 2), gerando uma indústria bastante lucrativa da educação.


“O inglês é a língua estrangeira mais ensinada, em mais de 100 países, [...] e, na maioria deles, é a principal língua estrangeira ensinada nas escolas”, aponta David Crystal (2003, p. 5). Some-se a isso o fato de que o processo educacional implica a propagação (e muitas vezes a imposição) de conhecimentos e ideologias de grupos sociais dominantes, tal qual ocorreu nos territórios colonizados pelos europeus nos mais de três séculos de colonização eurocêntrica nos quatro cantos do mundo.



A partir das reflexões expostas até aqui, podemos avaliar de que maneira o governo britânico, por meio de órgãos como o Conselho Britânico, tem deliberadamente elaborado as políticas de expansão do seu idioma, visando à naturalidade, neutralidade e mesmo beneficência na sua relação com outras línguas, em um mundo globalizado onde falar inglês deixou de ser um “privilégio” para se tornar uma necessidade.


Isso se reflete, por exemplo, na publicidade das mais diversas escolas de idiomas, escolas bilíngues e internacionais, segundo as quais o aprendizado de inglês ajuda os jovens a alcançar o sucesso desejado, que na maioria das vezes está intrinsecamente relacionado à ascensão social (não é raro presenciar enunciados do tipo: “o profissional que fala inglês tem salário até XX% maior do que o que não fala”).


Se, por um lado, tais afirmações têm o respaldo da hegemonia do inglês e seu contexto de “civilizar os territórios periféricos”, por outro lado, têm respaldo no seu papel de “guardião” do acesso ao mundo globalizado, bem como das posições socialmente prestigiadas. Ou seja, para pertencer a esse mundo globalizado, deve-se passar pela língua inglesa.


Em rápida visita a websites institucionais de órgãos governamentais britânicos, pode-se ler que eles, com sua expertise e seus serviços, “(...) visam a ajudar a melhorar a qualidade do ensino brasileiro”.


O emprego recorrente do léxico “ajudar” indica que, em relação aos brasileiros, os britânicos partem da premissa de que são superiores, com condição de ajudar a melhorar, detentores do saber “correto” etc.


Eis aqui um resquício dos principais aspectos do discurso (neo)colonialista: a arrogância, pois não existe nada pior que alguém querendo fazer o bem, especialmente o bem aos outros. O mesmo se aplica aos que “pensam bem”, com sua irresistível tendência a pensar por e no lugar do outro, disse certa vez Michel Maffesoli.


A esse respeito, A. Suresh Canagarajah, em seu clássico Resisting Linguistic Imperialism in English Teaching (1999), chama a atenção para o fato de que, “na maioria das comunidades periféricas, existe algum histórico de imposição da língua inglesa, a qual está frequentemente competindo com a língua nativa por motivos políticos e materiais” (p. 57).


Ora, o simples fato de impor-se como segunda língua, língua estrangeira ou mesmo língua adicional é também uma forma de manutenção da sua hegemonia, pois, “quando o inglês se torna a primeira escolha enquanto segunda língua, quando é o idioma no qual tanto se escreve e no qual as mídias visuais tanto acontecem, o inglês está constantemente empurrando outros idiomas para fora do seu caminho” (PENNYCOOK, 2003, p. 14).


Dois casos corroboram a tese do linguista britânico Alastair Pennycook:

  1. O inglês ter suplantado o francês enquanto língua de prestígio.

  2. O fato de a língua inglesa ser a única contemplada nos textos publicitários de escolas de idiomas.


Consequentemente, em (2) evidencia-se a inter-relação da publicidade com a demanda e procura por esse idioma no mercado educacional, trazendo à tona sua busca pela homogeneidade.


Canagarajah (1999, p. 129) nos informa ainda que “[...] precisamos entender que, para muitas comunidades periféricas, o inglês é mais um código em um rico repertório de múltiplas línguas”. Mesmo assim, “ao optar por aprender e falar inglês, o estudante toma uma complexa decisão ideológica e social” (p. 57), pois “falar uma língua é assumir um mundo, uma cultura” (FANON, 2008, p. 50), ou seja, aprender e optar por falar inglês pode implicar uma visão de mundo conflitante com as crenças e os valores locais.

Reflexões prospectivas


Ancorados no poder político-econômico e na influência cultural que os EUA e a Inglaterra exercem no mundo contemporâneo, este breve percurso sobre as políticas expansivistas (e impositivas) do inglês tratou de abordar em que medida esse idioma assumiu o predicado de língua global, a ponto de ser a língua mais utilizada por falantes que não têm o inglês como língua nativa, e a ponto de se tornar uma espécie de pré-requisito em praticamente todas as esferas da atividade humana na atualidade.


Sua expansão e importância são tais, que a revista londrina The Economist, em artigo intitulado The Triumph of English. A world empire by other means, classificou a língua inglesa como “um império mundial por outros meios”. E então: é ou não é algo para se pensar? Ademais, qual é o nosso papel nesse contexto?


É bom frisar que refletir sobre nossas ações cotidianas, mitos e crenças petrificadas em nosso imaginário, nos faz perceber as nuanças da vida. Com isso, passamos a gostar mais ainda do que fazemos ou estudamos, pois nos tornamos capazes de compreender o que e como fazemos, ou seja, tornamo-nos capazes de perceber. Percebendo, somos capazes de refletir. Ao refletir, somos capazes de buscar a mudança, o aprimoramento.


Esperamos que esse texto tenha contribuído para que se reflita sobre o seu, o nosso papel enquanto profissionais do ELT.


Sobre o autor : Edgar Godoi Gabriel

Edgar Godoi Gabriel tem pouco mais de 30 anos.

É estudante de Linguística, nas subáreas da Análise do Discurso e Linguística Aplicada.

Mora em um pequeno apartamento recheado de livros, discos, DVDs e imagens de gatos e cachorros.

Tem se dedicado à educação desde 2011, atuando em editoras diversas.





REFERÊNCIAS

@ULETE DIGITAL. DICIONÁRIO DIGITAL CALDAS AULETE. [s. d.]. Disponível em: www.aulete.com.br/ globaliza%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 19 ago. 2020.

CANAGARAJAH, A. Suresh. Resisting Linguistic Imperialism in English Teaching. Oxford: Oxford University Press, 1999.

CRYSTAL, David. English as an International Language. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

CRYSTAL, David. The Language Revolution. Malden, MA: Polity Press, 2004.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

KUMARAVADIVELU, B. A Linguística Aplicada na era da globalização. In: MOITA LOPES, L.P. (org.). Por uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006.

PHILLIPSON, Robert. Linguistic Imperialism. Oxford: Oxford University Press, 1992.

PENNYCOOK, Alastair. The Cultural Politics of English as an International Language. 3 ed. Londres: Pearson Education, 2003.

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PENNYCOOK, Alastair; COUTAND-MARIN, Sophie. Teaching English as a Missionary Language. Discourse: Studies in the cultural politics of education. v. 24, n. 3, 2003. p. 337-353.


PENNYCOOK, Alastair; MAKONI, Sinfree. The Modern Mission: The Language Effects of Christianity. Journal of Language, identity, and education. v. 4, n. 3, 2005. p. 137-155.


RAJAGOLAPAN, Kanavillil. Política de ensino de línguas no Brasil: história e reflexões prospectivas. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo (org.). Linguística Aplicada na Modernidade Recente: festschrift para Antonieta Celani. São Paulo: Parábola Editorial, 2013.